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Um olhar sobre Nanette, de Hannah Gadsby

Por Helena Roux

Nanette foi um daqueles shows de comédia que me recomendaram algumas vezes e eu sempre disse “eu vou ver”, mas nunca tinha visto, até o momento que buscando alguma inspiração e algo para animar minha tarde eu resolvi ver o último show de stand-up de Hannah Gadsby.

Para deixar você entendendo melhor sobre o que eu estou falando: Nanette é um show que foi gravado ao vivo e está disponibilizado na Netflix para quem quiser ver, assim como é a despedida de Hannah da comédia. E por que ela tomou essa decisão, que talvez seja algo estranho de ouvir num primeiro momento para alguém que está inserido exatamente nesse meio. Por que sair dos palcos? Largar o stand-up com uma carreira já sólida?  

Mas Nanette é um aprendizado, um aprendizado com gosto amargo.

Sair da comédia foi uma decisão pessoal dela e um aprendizado para o público e aqueles que trabalham com comédia. Nós fazemos piada com tudo, andamos com caderninhos na bolsa, aplicativo no celular, porque tudo, absolutamente tudo, pode se tornar uma piada. De um trauma a algo idiota do nosso cotidiano, como coisas realmente estanhas que aconteceram na rua ou conversando com alguém.

O problema de Hannah foi que suas piadas eram seus traumas. Era autodepreciativo e em algum momento ela percebeu que todos esses anos falando disso, trabalhando com isso e fazendo humor, como se rir fosse aliviar a tensão daquilo na vida dela era só algo que piorava aquilo.

E tensão é algo que ela fala muito em seu ultimo show. Como ela sempre usou isso na plateia, como ela vinha, enchia o público de tensão e tirava logo em seguida, causando uma risada. E como ela sempre foi a tensão. Para quem é do meio, ela explica técnicas por cima do stand-up, como fazer uma piada da maneira mais básica, mas ao mesmo tempo a mais crucial para um texto funcionar.

É um show de aprendizados sobre a vida e sobre a comédia.

Mas Nanette continua tendo aquele gosto amargo de aprendizado, principalmente conforme o show chega ao fim.

A comédia é algo que está nas nossas vidas normalmente porque é um alivio, é o riso contagioso, é perder a tensão, e isso são palavras muito mais de Hannah do que minhas. Mas se essa tensão, que nós tiramos do público quando causamos risadas é boa para eles, é muito pior para nós quando nós alimentamos nossa própria.

É fácil ser o engraçadinho numa conversa, numa sala de aula, no churrasco com os amigos. Sentar na frente de um público, pensar num texto com tempo para acabar, com piadas, que faça as pessoas rir, isso não é fácil. E pensar que o humor que nós fazemos, que gera aquelas risadas, pode ser um veneno para nós mesmos é no mínimo assustador.

Isso não é um texto sobre o que você tem visto em show de comédia por aí, não sobre o que um comediante fala é certo ou errado, ou se é bom ou ruim para você. Esse é um texto sobre fazer bem para si mesmo.

Nanette é amargo porque é nada que é real, nenhuma verdade é boa de ser ouvida ou entendida. Mas Nanette é sobre aprender, porque “a diferença é uma professora”. E esse texto que parece uma resenha malfeita não é isso, é uma recomendação. Porque sair da zona de conforto pode ser bom. E repensar o que a gente faz ou escreve também.

Veja o Trailer

Assista o Especial na Netflix


Helena Roux é estudante de Artes, Mestre em RPG, Stand Upper e escreve para a Academia Brasileira de Comédia. Segundo sua mãe, Helena é a pessoa mais diferente que ela já conheceu.

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